A mulher e a nutrição: Uma relação de amor e vida!

Publicou: Marcia Parente às 01:00
Ser mulher é ter fome de muitas coisas: de afeto, de cumplicidade, de tempo livre e, claro, de um bom prato de comida. Assim pensa a cientista social Carla Cristina Garcia, estudiosa de temas que rondam o universo feminino, veja a entrevista á seguir.
De onde vem a força feminina para dar conta de mil e um papéis na sociedade atual?

CCG Essa força é ancestral, nos remete aos tempos primordiais em que as mulheres aliavam a intuição à experiência do mundo concreto. No caso, a coleta de alimentos e, posteriormente, a agricultura. Elas conheciam o poder da terra, das sementes e dos alimentos. Compreendiam e respeitavam os ciclos da natureza, sabiam o que era bom e o que não era para a saúde, eram responsáveis pelo preparo da comida e, portanto, pela subsistência das comunidades. Apesar de ainda conservarmos essa força dentro de nós, muitas mulheres se desconectaram dela a partir da modernidade. Daí terem sido alvo de doenças mentais como a histeria, no século 19, e sofrerem de anorexia e depressão no século 20 e 21. No entanto, podemos recuperar esse poder relembrando e valorizando o legado das mulheres do passado, não apenas aquelas que se destacaram na história, mas também nossas familiares.

Por que você pesquisa a relação entre as mulheres e a comida?

CCG Entrevistei mulheres internadas em manicômios, logo, destituídas de função produtiva como trabalhadoras e de função familiar, já que não são esposas de ninguém, bem como senhoras idosas, que perderam o papel primordial da procriação, ou seja, mulheres para as quais ninguém olha. Mesmo assim, elas estão vivas e dão risada. Minha intenção não era apontar a vitimização, e sim compreender por que nos mantemos conectadas com a vida. Queria descobrir onde está o poder feminino, muitas vezes subestimado pela sociedade e por nós mesmas. Foi aí que descobri a importância da comida.

Em que sentido é importante?

CCG Quando você analisa o que as escritoras dizem sobre a comida na ficção, nota que ninguém fala de temas como anorexia, e sim de banquetes. Quando lemos aquelas palavras que dão vida a imagens fantásticas de comunhão entre as pessoas, que traduzem a felicidade proporcionada pela degustação da comida e a leveza desses momentos, nos alimentamos, nos expandimos. Ficamos saciadas como se tivéssemos comido um pratão do que mais gostamos. Há uma passagem em que a escritora inglesa Virginia Woolf diz: “Não dá para pensar bem, amar bem, dormir bem se você não jantou bem”. Do mesmo modo, se você não alimenta sua alma, se você está sempre com fome de uma vida nutrida, tudo parece horrível.

A cozinha, então, é o reduto do afeto, muito mais do que do trabalho exigido pela preparação do alimento e pela limpeza do local?

CCG Do afeto no sentido mais amplo da palavra, porque a comida nos afeta e vice-versa. Se você está chateada ou tensa, seu bolo não vai crescer. Na sociedade ocidental, uma boa parcela das mulheres se relaciona muito mal com a comida, porque tem que ser magra e, em nome disso, só come duas folhas de alface e um tomate. Para piorar, junto com a cobrança estética exige-se que a mulher nutra todo mundo o tempo todo. Como se fôssemos um grande seio cheio de leite que deve alimentar marido, filhos, trabalho. Em contrapartida, não há quem nos nutra. Aí a gente morre de fome, nos dois sentidos. Ficamos anoréxicas em relação ao corpo e à alma.

Como fugir dessa armadilha?

CCG Nos relacionando bem com nossas ancestrais, figuras femininas poderosas que têm muito a nos ensinar. Não quero minimizar os problemas que as mulheres enfrentam hoje. Pelo contrário. O feminismo conquistou algumas liberdades civis, mas, culturalmente falando, ainda temos muito trabalho pela frente. Continuamos apanhando muito, morrendo nas mãos dos homens, ganhando menos que eles, acumulando tarefas. Mas é importante que a gente resgate a razão que nos mantém vivas e com alegria. Para tanto, é inevitável recuperarmos a riqueza presente no espaço privado e nas relações cultivadas dentro dessa esfera.

Você afirmou numa reportagem que a comida não é efêmera. O que isso quer dizer?

CCG Ela não é efêmera justamente por evocar e produzir memória. Num dia frio, por exemplo, quem não sente vontade de comer o bolinho de chuva da mãe? Basta sentir seu cheiro para a saudade bater imediatamente. Os aromas remetem à infância e nos deixam felizes. Nos cadernos, as mulheres fixam a lembrança da pessoa que transmitiu aquela receita, das coisas que a mãe fazia nas férias ou nos almoços de domingo. Dessa forma, a comida é indutora de imagens que vamos guardando e que dizem respeito a outros espaços distantes do mundo do trabalho. Enfim, imagens felizes que marcam a nossa vida.

Que dica você dá às mulheres que trabalham muito mas querem saborear as delícias que o universo doméstico pode oferecer?

CCG O primeiro passo é voltar a gostar de comer sem culpa. Precisamos reaprender a comer devagar, a desfrutar um bom prato de comida em companhia das amigas, a enxergar a casa como um lugar aconchegante. Temos que reservar mais tempo para exercer o afeto junto à família e aos amigos. E, dessa forma, saborear momentos em que conseguimos conversar de verdade. De modo geral, temos que ter prazer em “comer o mundo”.

A mulher contemporânea tem fome de quê?

CCG Nossa fome vem da alma. Temos fome de uma vida mais alegre, de um bom salário e de bons relacionamentos afetivos. Também temos fome de ter menos responsabilidades e mais oportunidades de compartilhar as coisas boas da vida com as pessoas. Temos fome de solidariedade entre o casal, de tempo livre, de não fazer absolutamente nada, enfim, de ter direito à preguiça e ao chinelo. Definitivamente, a mulher não quer mais ter tantas jornadas.

“O tipo de sociedade em que vivemos faz com que tenhamos uma relação muito ruim com a tradição feminina, no sentido de pensar ‘vou fazer diferente, não vou ficar limitada à vida doméstica’, como se isso fosse um horror. E não é. Se prestarmos atenção, veremos que esse é um espaço de criatividade.”

“Existem várias coisas que podemos realizar para sermos felizes, como comer, alimentar os outros e dividir o pão com quem queremos e gostamos.”

“Precisamos reaprender a comer devagar, a desfrutar um prato de comida com as amigas, a enxergar a casa como um lugar aconchegante. Temos que reservar mais tempo para o afeto junto à família e aos amigos. E, assim, saborear momentos em que podemos conversar de verdade.”

Fonte: Revista Bons Fluídos


0 comentários:

Postar um comentário

Obrigada pela visita! Seu comentário é muito importante.

 

Saudável e Bela Copyright © 2012 Design by Cecilia Parente inspirado em Vinte e poucos